Publicações Recentes

Surge a Broadway paulistana

Desde sua abertura, devido ao comprimento exagerado, a São João sempre foi alvo de críticas, considerada por muitos um escândalo urbano-financeiro. Mas seria justamente por causa de sua extensão que, nos Anos 40, a avenida se tornaria o centro da agitação noturna da cidade, concentrando restaurantes, cassinos, cabarés, boates, teatros, livrarias e, principalmente cinemas, quando passou a ser chamada de “Broadway Paulistana”.

Na época, a disputa por espectadores era acirrada. Os novos e modernos cinemas da cidade, também chamados de “lançadores”, entre eles o Metro, o Broadway, o Art Palácio, o Ipiranga e o República, além dos chamativos luminosos exibiam gigantescos painéis na calçada com desenhos e fotos reproduzindo cenas do filme e cartazes anunciando a orquestra que tocava nos intervalos. Como o ar condicionado foi a grande novidade da época, logo na entrada dos cinemas enormes placas informavam: “Ar condicionado perfeito”. Para driblar a concorrência existia até um acordo de cavalheiros entre os exibidores, assim, cada cinema tinha o dia certo para a troca de filme: o Art Palácio trocava às segundas-feiras, o Ipiranga às quartas, o Metro às quintas, e assim por diante.

Naquele tempo, ir ao cinema obedecia a um ritual pré-estabelecido: um lanche antes (as filas de espera eram rotineiras, apesar da amplitude das salas) e, obrigatoriamente, um bom jantar depois. Portanto, a concentração de bares, casas de lanches e restaurantes, na São João e adjacências, foi uma decorrência natural.

Ao longo da avenida também surgiram diversos guetos: dos boêmios inveterados, dos desocupados, dos estudantes, dos intelectuais, da classe média e da elite. Tratava-se de uma divisão que, mesmo não sendo discriminatória, podia ser considerada pelo menos diferenciada, e cada um escolhia o local de preferência de acordo com seu perfil ou condição econômica e social.

O Prédio Martinelli dominava absoluto o primeiro quarteirão da São João, mas sua importância continuava restrita à altura, apesar de contar ainda com o Cine Rosário, o famoso taxi-dancing Salão Verde e, no subsolo, a boate A Gruta, onde predominavam tangos e boleros.

Considerando o grande edifício como ponto de partida, logo na esquina com a Rua Libero Badaró havia a casa de lanches Dois Porquinhos, que servia um saboroso pão com lingüiça ou salsicha, com preço acessível a todos. Do outro lado da avenida, no mesmo quarteirão, funcionava o famoso restaurante Automático, popular e barato, muito procurado pelos estudantes e empregados do comércio. Um pouco adiante, na esquina com a atual Prestes Maia, defronte ao prédio dos Correios, ficava o restaurante Ao Pingüim, que pertencia à Companhia Antarctica Paulista, onde tocava uma orquestra típica vienense. Com apenas 1.500 réis era possível comer um prato de salada de batata acompanhada de uma salsicha e tomar um chope. Valia a pena comer a salsicha fria e tomar o chope quente, e assim poder ficar mais tempo naquele ambiente agradável, apreciando o som dos violinos. Bem ao lado do restaurante, no Vale do Anhangabaú, ficava o Coliseu, famoso teatro de revista que marcou época na cidade com uma longa temporada do espetáculo Moinho do Jeca, com o comediante caipira Genésio Arruda.

Atravessando para o outro lado do Vale do Anhangabaú chegava-se ao coração boêmio do centro novo, que estendia suas artérias para além da Avenida Ipiranga. Para muitos, aquele trecho da São João era um prolongamento da “Barão”, por causa da sofisticação de alguns estabelecimentos, mas para a maioria era apenas “a prainha”, onde todos se encontravam.

Logo no primeiro quarteirão ficava o finíssimo restaurante Palhaço, o mais caro e sofisticado da época, portanto, também o mais procurado pela elite paulistana. Nas noites de domingo, depois do cinema, o local fervilhava com a presença de homens de terno, gravata e chapéu, acompanhados de suas elegantes senhoras usando luvas. Muitos casais levavam seus filhos, por isso era comum alguns namoros entre membros de famílias abastadas começarem depois de uma primeira troca de olhares entre as mesas do Palhaço.

Na seqüência vinham os bares da moda, dia e noite apinhados de gente, o que justificava o apelido de “prainha” daquele trecho da São João. Os mais movimentados eram o Juca Pato, na esquina com a Dom José de Barros, e o Jeca, na esquina com a Ipiranga.

Nas proximidades da Avenida São João era possível encontrar outros redutos onde a noite acontecia. Teatros, cinemas, cabarés, bares e restaurantes se espalhavam também pelas ruas 24 de Maio (onde o Teatro Santana marcou época com a peça Deus lhe Pague, escrita por Joracy Camargo, imortalizando o grande ator Procópio Ferreira), Dom José de Barros e Avenida Ipiranga, transformando a região num permanente footing noturno, onde o piscar dos luminosos era um irrecusável convite ao lazer e aos prazeres da vida. Os nomes se multiplicavam: Amarelinho, Maravilhoso, Simpatia, Lírico, Carlino, Papai, Spadoni e muitos outros, com destaque para o Salada Paulista, inicialmente na Dom José de Barros com a 24 de Maio e depois na Avenida Ipiranga, ao lado do cinema. Dizem que foram os garçons do Salada Paulista que inventaram a frase “Caixinha, obrigado!”.