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São Paulo nas ondas do rádio

Na metade dos Anos 30, a cidade de São Paulo já contava com dez emissoras de rádio e, a exemplo do que ocorria na maioria dos grandes centros urbanos, os paulistanos foram atacados por uma verdadeira “radio mania”. Possuir um rádio significava estar em contato com tudo o que acontecia de importante no país e no mundo, portanto, os “aparelhos falantes” eram encontrados em quase todas as casas da classe média que, por sobre os telhados, ostentavam mastros altíssimos para sustentar as antenas, importantes para captar melhor as ondas Hertz.

Naquela fase inicial do rádio, tudo dependia do speaker, como na época eram chamados os locutores. Eram eles que anunciavam a emissora, apresentavam programas, faziam comerciais e liam crônicas literárias. Considerados “as grandes vozes do rádio”, os locutores eram a marca registrada de cada emissora, e o primeiro grande destaque nessa profissão foi César Ladeira, paulista de Campinas, que iniciou sua carreira na Rádio Record e ganhou fama nacional como locutor oficial da Revolução Constitucionalista de 32, quando conclamava os paulistas para a luta democrática. Sua frase de abertura, “amigo ouvinte…”, era familiar em todas as casas. Devido ao grande sucesso, logo depois da revolução ele foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, na época a maior do país, onde passou a ler diariamente a crônica Cidade Maravilhosa.

Além de criar um estilo, César Ladeira também lançou um modismo: a maioria dos locutores em atividade nas rádios brasileiras seria formada por paulistas. O motivo foi a dicção de Ladeira, que de imediato passou a ser imitada, mas nunca com perfeição. Logo seria descoberta a razão daquela técnica inimitável: o curso de oratória da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Foi assim que, muitos bacharéis trocaram o tribunal pelo microfone.

Em São Paulo, depois da pioneira Educadora Paulista surgiram a Cruzeiro do Sul e, causando grande sensação, a Rádio Record, fundada por Paulo Machado de Carvalho, que de imediato se tornaria líder de audiência, popularizando o prefixo “PRB 9” e justificando seu slogan “A maior de São Paulo”. Aos poucos entrariam no ar outras emissoras, todas ostentando seus sugestivos slogans: Difusora, “O som de cristal”; Cultura, “A voz do espaço”; Bandeirantes, “A mais popular”; São Paulo, “A voz amiga”; Gazeta, “A rádio de elite”, e muitas outras, mas nenhuma ameaçava a liderança da Record. Isso pelo menos até setembro de 1937, quando Assis Chateaubriand inaugurou a Rádio Tupy de São Paulo, “A mais poderosa”, com o prefixo “PRG 2”, contando com três estúdios, uma orquestra sinfônica e um grande auditório que era também salão-de-chá. A solenidade de inauguração, com a presença das principais personalidades da cidade, foi aberta com a execução do Hino Nacional, seguida de discursos do próprio Chateaubriand, do governador Cardoso de Melo Neto e do prefeito Fábio Prado.

As novidades da época foram os programas de humor, lançando nomes como Zé Fidelis, Jararaca e Ratinho (Record) e Manoel da Nóbrega e Aluísio Silva Araújo, com o programa Cadeira de Barbeiro (Tupy). Surgiram também os primeiros programas de calouros nos auditórios das rádios, um gênero criado por Celso Guimarães na Rádio Cruzeiro do Sul, e um dos mais famosos foi Hora da Peneira (Cultura). Foi justamente num desses programas, sempre realizados aos sábados, que seria revelado o então candidato a cantor João Rubinato que, duas décadas mais tarde, como compositor, usando o pseudônimo Adoniran Barbosa, se tornaria um dos maiores símbolos da cidade.

Outra característica marcante das emissoras de rádio era manter entre seus contratados uma grande orquestra para a execução, ao vivo, de música erudita e popular. Foi quando surgiram maestros de renome como Francisco Mignone, Hervê Cordovil e Radamés Gnatalli. Era comum as orquestras acompanharem os cantores em suas apresentações, também ao vivo.

Naquele tempo, quase todos os cantores iniciavam suas carreiras no rádio, onde alcançavam a popularidade necessária para depois gravarem seus discos. A portuguesa Carmem Miranda seria uma das primeiras, quando, em 1929, aos 20 anos, debutou na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro cantando Taí (Pra Você Gostar de Mim). Ao serem apresentados pelos locutores, que haviam se tornado os astros do broadcasting das rádios, os reis e rainhas do rádio tinham o nome sempre acompanhado por apelidos e adjetivos: Carmen Miranda era A Pequena Notável; Francisco Alves, O Rei da Voz; Orlando Silva, O Cantor das Multidões, e assim por diante.

Aliás, o termo “cantor das multidões” foi cunhado pelo locutor Oduvaldo Cozzi, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em 1938, durante uma apresentação de Orlando Silva em São Paulo. O cantor havia gravado no ano anterior a valsa Lábios que Beijei, seu primeiro sucesso de repercussão nacional, e se apresentaria pela primeira vez na cidade, no auditório da Rádio São Paulo, na Praça da Sé. A notícia se espalhou e, horas antes do início da transmissão, uma multidão lotava a praça e tentava entrar na sede da emissora. Temerosos de um tumulto, os donos da rádio pediram ao cantor que se apresentasse na sacada do prédio. Orlando Silva cantou para um público estimado em cem mil pessoas, número considerado recorde na época.

Aproveitando-se da popularização do rádio, a indústria fonográfica crescia junto, e no início da década de 1930 seria impossível imaginar um segmento independente do outro. Algumas gravadoras tinham sua própria emissora, e uma das primeiras foi a RCA Victor, que era proprietária da Rádio Transmissora do Rio de Janeiro, ou vice-versa, como no caso da Organização Byngton, proprietária das rádios Cruzeiro do Sul de São Paulo e do Rio de Janeiro, que representava no Brasil a gravadora norte-americana Columbia. Já a Rádio Philips do Brasil fabricava seus próprios receptores de rádio, que eram anunciados com o slogan “A chave que lhe abre o mundo”.

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